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Uma prosa, pra variar... essa ficou entre as finalistas de um concurso de mini-contos.
Baratas na alma
Numa tribo do Alto Xingu há uma regra espiritual que diz que alma de todo ser vivo que você mata, entra na sua alma, e quando você morre, já é um outro ser, diferente do que era em vida. Esses seres são chamados de “agregados”.
Era nisso que eu pensava quando matei aquela barata. Imaginei logo sua alminha marrom saindo daquele corpo cascudo e encharcado de inseticida, sendo chupada para dentro de mim.
Desde que vi essa reportagem sobre a tal tribo e a teoria dos “agregados”, que não consigo matar um mosquito sem pensar nisso. E quando, em vez de matar, você deixa morrer? Já deixei algumas plantinhas morrerem por me esquecer de regá-las. E se você mata sem querer, como sair pisando em formigas ao caminhar na calçada? Será que o fenômeno só ocorreria se houvesse o dolo?
Sim, eu tive a intenção de matar a barata. E já matei outras baratas e insetos e plantas.
Fico imaginando o que deve ocorrer à alma do cara responsável por abater os bois no matadouro. No final de sua vida, ele está mais pra boi que pra gente. E o que importa isso? Será que para os reencarnacionistas esse cara teria grandes chances de voltar boi? Para os índios dessa tribo isso se daria, não por castigo, mas por afinidade. Céus! Então quem mata muitas baratas... não quero pensar nisso, afinal é só uma teoria que provavelmente algum pajé muito chapado de cipó da Amazônia desenvolveu. Não é assim que acontece... mas então por que é que sempre que eu mato algum bicho, me sinto identificada com ele? Faz sentido, pensando bem...
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Escrito por Flávia Valente às 14h09
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Camadas
Hoje, primavera dos sentidos
Só faz sentido o que está bordado
No céu da boca, no labirinto do ouvido
Só me preenche o que será passado
Só me convence o que foi pecado
Neste momento exato só me seduz
As camadas de tinta – infinitas - de Picasso

Escrito por Flávia Valente às 23h06
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Depois de Bach, Baco...
Loucuras Báquicas
Deu-se o enredo. Eu estava no terraço. Não tinha Jack, fui de vodka com saliva. Deu no que deu: um céu tão estrelado, que dava pra ver Deus.
E ao me ver no espelho, eis que me deparo com algo bonito: é o meu olhar de novidades. Sóis intensos e muita maresia, dados por alguém que eu mal conhecia.
Foi quando pensei comigo:
Essas pessoas malucas, perdidas, cheias de fogo, que se deixam guiar por seus instintos... deviam ser presas! Em camisas de força, em camisas de Vênus, no Olimpo, em meio a um banquete com os deuses!
Escrito por Flávia Valente às 22h32
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Bach
Na festa de aniversário do meu cunhado Paulo Gouvêa (um músico que não se crê tão bom quanto é), falei muito sobre Bach com um outro músico: Pedro. Não sei porque Bach. Gosto muito de Bach, mas nunca senti nenhum tipo de fanatismo a respeito... até esta festa. Vê como a vida é simples? Uma simples festa nos mostra algo de nossa personalidade que até então ignorávamos. Falei de Bach como se conhecesse toda sua obra. E o mais curioso, senti como tal. Bebedices à parte, sei que foi real. Ultimamente tenho escutado e revereciado muito o blues. Posso assumir agora minha alma rock/blues em toda sua extensão, mas Bach... Bach... sinceramente, acho que isso tudo começou com Bach. Ouçam e me digam, por favor. E já que estamos falando de rock, acredito piamente que o rock começou com Beethoven. Coloquem Pink Floyd e Beethoven lado a lado e me falem qual é o resultado.
Escrito por Flávia Valente às 20h27
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Big Wing

Onde estão suas asas? As minhas ainda carrego penduradas, desajeitadas... somos anjos que pedem colo pra Deus.
Escrito por Flávia Valente às 22h04
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Ferrugem
Andei distante das poesices, achei que não valia a pena, nunca vou ganhar dinheiro com isso... nem namorado, nem sabedoria, nem tampouco vou fazer as pessoas passarem a ler mais...(violinos, por favor). Nossos draminhas vida afora. Até que parei pra prestar atenção à uma letra do Djavan. A música: "Ferrugem". O título é sujestivo para a minha nova fase poética. Me sinto enferrujada sim, mas o que me tocou nessa letra foi a poesice extremamente - tenho que dizer nesses termos - escrota desse cara. Escrota no sentido mais lindo. Canjinha, vai aqui um pedacinho: "Restos de sonhos sobre o novo dia, amores nos vagões, vagões nos trilhos... parece que quem parte é a ferrovia. E mesmo não te vendo, te vigio, como mãe, como mãe, que dorme olhando os filhos com os olhos na estrada". Arrepio até as sobrancelhas com essa música... então deixei de ser covarde e posto agora um poema antiiiigo, da época que eu morava em Brasília. Fui injusta com ele durante muito tempo, pois não o achava interessante. Até lê-lo hoje e ver que ele, lindamente, faz parte da minha ferrugem.
Azuis
Fiquei fazendo versos estranhos
Enquanto rolava o blues
Enquanto eu chorava meus azuis
Daqueles olhos castanhos
Cheio de versos escuros
E todos os cheiros da noite
Parece que em mim entranhavam
E eu me estranhava
Como se de mim fosse exilada
Como se tivesse que descer as escadas de mim
(Será que só eu nessa cidade gosto de blues?)
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Escrito por Flávia Valente às 17h50
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Essa vai para o meu anjo bailarino ;)
Toda graça
Fauno brasileiro
Teu encanto é passageiro
Mas pega como cachaça
E depois, quando passa
Me deixa numa ressaca
E tudo que eu quero é casa
E ainda assim o teu cheiro
De anjinho dançando na praça
Com teu jeito de brincadeira
Sempre falando besteira
E rindo de toda graça
Mas o que mais em mim te gosta
É o teu espírito leve
E a tua cara safada
O que mais em mim te quer
É o teu olhar fugidio
Fingindo que não quer nada
Como aqueles anjos barrocos
Que enfeitam os mosteiros
E com o clima meio louco
De quem vive num puteiro
Escrito por Flávia Valente às 23h44
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na estrada
Para mim, pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo agora, que queimam, queimam, queimam como fabulosos fogos de artifício explodindo como contelações em cujo centro fervilhante - pop! - pode se ver um brilho azul e intenso até que todos "aaaaaah!"
isso quem escreveu foi Jack Kerouac, mas eu vou mais ou menos por aí também...
Eu estou mesmo on the road... não, não é um estilinho que eu poderia estar fazendo, porque - vá lá - tem seu charme, mas porque realmente estou percorrendo a longa e tortuosa estrada. Estar com o pé na estrada ultrapassa a condição geográfica, é acima de tudo um momento. E a qualquer momento podemos fazer uma puta viagem. Mas numa estrada, nem tudo são flores...
Escrito por Flávia Valente às 23h16
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Depois de tarjas pretas, bandeides, porque os ferimentos são leves, mas inevitáveis.
Amores de esquina
Puta merda, aquela agonia de novo. Nós, muitos nós. Muitos de nós sabemos o quanto apertam no peito, na garganta, na nossa confiança, esses nós de gravata, de regras, de manual de instruções. Sujos, rotos, maltrapilhos, vendidos como amores de esquina. Os amores são esquivos. Esses amores mesquinhos, como esmolas de mendigo.
Escrito por Flávia Valente às 16h23
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Nove

Dia 30 de março aconteceu a I Mostra Retoque de Tango no Teatro Ipanema na qual eu participei com a coreô “Nove”, que está na foto. Ao todo são 19 pessoas no palco, contando com o auxílio luxuoso de Zezé Magela, meu amigo ator-bailarino que está aí na frente. A poesice que segue é a íntegra do texto que ele fala em cena.
Mancha Roxa
Vamos então tateando o futuro, como que andando num quarto escuro, aos tropeços e topadas, vamos numa lenta caminhada, que para muitos não é nada, mas para outros a vida toda. É bom olhar para o céu e nos depararmos com o infinito, mesmo que isso assuste, mesmo que não bonito. É bom dançar tango no escuro, mesmo que inseguro, mão com mão, as pernas se tocam lá embaixo, mesmo que com uma mancha roxa na coxa, mesmo que o bandoneon soe melancólico, o futuro é estarmos sempre de frente, mesmo que de lado, mesmo que de costas. Façam então, suas apostas. Eu aposto no som que não tem fim, na estranha melodia. Aposto nas espirais, nas torções, na simplicidade do riso. Aposto no ir e vir e no não terminar de partir. Aposto que tudo vira ouro neste mesmo piso, numa constante alquimia. Já posso ver o futuro e, diante desse salão, eu juro, vejo só poesia.
Escrito por Flávia Valente às 15h53
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Em minha última noite mal dormida, tive a revelação: se você sintonizar em determinada estação de rádio, vai ouvir os quadros de Chagall. Ouvir os quadros de Chagall? Como isso é possível? Não seja careta - respondeu a revelação, um tanto impaciente - você nunca ouviu uma pintura?

Escrito por Flávia Valente às 18h44
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Dessa morte todo mundo gosta :)
Morte nº4 - orgasmo
Minha mais nova santa de devoção:
Santa Teresa D’Ávila
A protetora do orgasmo
(essa pequena morte)
Porque da pequena morte fomos gerados
Por isso não é pecado
Juntar nome de santo ao que há de mais sagrado
Não é blasfêmia o que estou dizendo
O orgasmo é universal
Se o Big Bang não foi um imenso gozo
O que foi afinal?
Escrito por Flávia Valente às 16h07
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